Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Surfing 'haoles' days

 Por ocasião da terceira etapa do Circuito Nacional de Surf que decorreu nos Açores, em Ribeira Grande, levantaram-se algumas vozes de protesto. Entre outras questões que têm a ver directamente com o circuito, as do localismo e a divulgação de ondas em locais isolados foram aquelas que provocaram mais azia aos habituais daquelas paragens.

 

Estes são problemas omnipresentes no mundo do surf e bodyboard. Atravessam países e culturas. E que atire a primeira pedra quem gosta de ver crowd estranho – os chamados haoles -  no seu “quintal” ou um dos seus secrets revelados na capa da magazine do mês.

 

Eu encaro este problema, em particular, duma forma um pouco mais profunda do que o simples egoísmo e desdém pela concorrência alheia. É aqui que a minha paixão por ondas e paisagens solitárias entra em conflito com a minha alma de jornalista. Se por um lado a primeira jura a pés juntos proteger a todo o custo o seu cantinho mágico, a segunda sussurra-me que o leitor tem direito a saber, tal como eu, da existência daquele lugar. É um direito da res publica e, por outro lado, o dever do jornalista, inchado de orgulho, em ser o primeiro a dizer "eu sei que existe e posso dizer-vos onde é". E até aposto que nós poríamos o moralismo de lado por uns segundos e lá comprávamos a revista para saber as novidades. No entanto, até mesmo O Direito da Comunicação Social diz que “é da natureza da informação dizer a verdade e, contudo, nem toda a verdade é boa para ser dita”.

 

Encontrar um ponto de equilíbrio entre o divulgar e omitir, entre desenvolver o mundo da competição com novas etapas e resguardar locais que deviam ser reservados ao free-surf. Complicado!

 

Considero que os desportos de mar, em particular o surf e o bodyboard, são bem mais que a prancha da última moda, ondas, manobras e fama. Neles reside tudo o que é contrário à preguiça: é o saborear do caminho que se faz para chegar até lá, literal e metaforicamente falando. São avanços, retrocessos e desilusões. É persistência, mérito e o prazer da descoberta. É a ousadia de se lançar em "mares nunca dantes navegados" e a esperança de sermos brindados, num regresso, com a mesma pureza duma primeira vez.

 

Mas, acima de tudo, é mostrar respeito por quem desbravou antes de mim aquele lugar,  mantendo um segredo. Respeito por aquele pedaço de natureza abençoado desbravado apenas num ou noutro escasso momento. Afinal, também não é contra-natura deixar vazia uma onda perfeita? No entanto, a história ensina-nos que estes deveriam ser actos mais ou menos solitários, pois tudo que implica massas implica inevitavelmente a destruição ou profunda modificação de uma espécie de património, seja ele cultural, seja ele natural.

 

Embora esta seja uma opinião meramente pessoal, não é propriamente, na sua base, uma ideia minha. O filósofo e sociólogo Walter Benjamin já referia isto por outras palavras, quando escreveu em 1936 o artigo "A obra de arte na era da  sua reprodutibilidade técnica", onde teorizou o conceito do "fim da aura". Em resumo, para o autor a experiência de uma obra de arte residia na sua própria aura, isto é, na sua própria autenticidade original ou "manifestação única de uma lonjura". Com o advento da sociedade burguesa e as novas técnicas de reprodução e massificação (a industria, a fotografia, etc.), dá-se aquilo a que ele chama de "decadência da aura". Num plano prático, a arte pode massificar-se, reproduzindo-se infinitamente. As massas têm acesso a essa arte, de forma politizada mas nesse processo de reprodução subtrai-se aquilo que é mais importante: a aura dessa mesma obra de arte, ou seja, a característica essencial que faz dela Ser "obra de arte" em si mesma, única e irrepetível.

 

O que eu quero dizer com tudo isto é que, ainda que um spot não seja propriamente uma "obra de arte" – pois é do plano natural e não cultural - a massificação (ou divulgação perpetuada) desse mesmo lugar, implica inevitavelmente a perda da sua "aura", ou seja, da característica que perdura no tempo e que pode ser admirada e usufruída de geração em geração. Uma “lonjura” que deveria ser protegida. Não quero dizer com isto que estejam em causa os direitos de meia dúzia de locais. Trata-se acima de tudo de proteger a aura do lugar em si.

 

Apesar de tudo, considero que os direitos se conquistam como em tudo na vida. Seja por herança, por conquista ou por mérito. Seja por nascermos ali e surfarmos lá toda a vida, pela dica do nosso melhor amigo ou pela nossa performance dentro de água.

 

Mas deixemo-nos de hipocrisias. Lugares secretos ou vedados aos locais, nos dias que correm, começam cada vez mais a ser uma ideia romântica. Se por um lado queremos ver o nosso desporto evoluir temos inevitavelmente de engolir alguns sapos, nomeadamente, o aumento de crowd ou, em último estádio, a realização de campeonatos na nossa praia de eleição. Além do mais é irreal pensarmos que um spot a poucos minutos da civilização seja eternamente secreto. A humanidade é cada vez mais uma grande aldeia global e caminha muito mais no sentido da exposição do que no da preservação. É uma consequência dos tempos modernos que se estende a todos os campos sociais.

 

Resta então, a cada um de nós, ser responsável por manter a todo o custo a aura do nosso spot pois, no final de contas, nós também fazemos parte dessa “manifestação de lonjura”, numa comunhão perfeita. Seja pela forma como nos relacionamos com o lugar, com os outros que o partilham connosco ou pela nossa atitude no mar. Sejamos cinco ou sejamos cinquenta.         

  

 Texto Publicado na Revista FreeSurf Secção "Flores do Mar"- Nr. 6 Novembro / Dezembro 2008

 

*

Este texto é a retoma de algumas ideias veiculadas aqui, em posts anteriores. Agradeço sobretudo ao blogger Hugo M. pela profícua e estimulante troca de comentários que em muito enriqueceram este resultado final. 

 

memorizado por LaraR às 00:44
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2 comentários:
De Alguém que lê o que escreves a 8 de Dezembro de 2008 às 18:54
Lendo o texto " A ira" fiquei q com a certeza que te oponhas à exposição desta ondas aindas desconhecidas. Agora fiquei com dúvida sobre a tua posição
De LaraR a 9 de Dezembro de 2008 às 02:02
E não mudo de opinião =)
De facto oponho-me! Não há necessidade nenhuma em escarrapachar um spot ainda secreto numa capa. Se quisesse eu própria faria algo do género a troco de alguma visibilidade neste mundo tão concorrido, podia fazê-lo e não o faço, era só propor isso à revista a quem me estão a dar a oportunidade de escrever... . Simplesmente gosto de respeitar os locais, as pessoas que me contaram a localização e sim, não vou dizer que gosto de concorrência quando la vou. O problema é que é utópico pensar que neste mundo cada vez mais globalizado se consegue guardar um segredo ou preservar determinado local para sempre.
Um exemplo bom é a Cova do Vapor. Tenham paciência mas não é possível que um local no meio da civilização seja um oásis exclusivo para os locais ou que não apareçam imagens das ondas dali. Não são paus e pedras que resolvem o assunto ou fundamentalismos. É a atitude que está em cada um de nós. Até se pode contar ou mostrar, sem revelar totalmente. p ex. Ou saber a quem se conta, a quem se passa a palavra. Saber se devemos ou não entrar na água com mais 4 ou 5 amigos, se lá estão locais num pico único, p ex. Sendo eu professor, devo levar para lá uma escolinha? E organizar campeonatos ali?
Há que haver algum discernimento. E isso é uma atitude interior a cada um de nós, seja a surfar seja noutros aspectos da vida.

Obrigada por "leres o que escrevo". E um obrigada ainda maior pelo comentário. Volta sempre =) e boas ondas!

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