Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Canhão da Nazaré

 


 

O desfiladeiro da Nazaré é uma espécie de imenso vale submarino que atinge os cinco mil metros de profundidade e os 150 junto à costa e se estende ao longo de 200 km. Funciona como um gigantesco "aspirador de inertes" e permite ecossistemas diversos, de acordo com o seu nível de profundidade. Em diversos estudos nacionais e estrangeiros, encontraram, por exemplo, um tubarão a 3600 metros de profundidade, assim como diversas colónias de corais e espécies ainda desconhecidas.

 

Este espectacular acidente geomorfológico de origem tectónica, relacionado com a falha da Nazaré-Pombal, começa a definir-se a cerca de 500 metros da costa. Esta garganta submarina provoca grandes alterações ao nível do trânsito sedimentar litoral, uma vez que este vale é um autêntico sumidouro para os sedimentos provenientes de norte, da deriva litoral, o que justifica a inexistência de grandes extensões de areia nas praias a Sul da Nazaré. O Canhão da Nazaré gera a afluência à superfície de águas ricas em nutrientes e plâncton, permitindo a presença de uma fauna bastante rica em espécies de interesse comercial.

 

Numa iniciativa inserida no projecto europeu HermesO, o Canhão da Nazaré - um dos mais importantes de todo o projecto - foi alvo de  estudos executados com o apoio de um ROV (Remote Operating Vehicle) que permitiu recolher estes e outros tipos de dados em profundidade. O robô, controlado por fibra óptica, tem várias câmaras e garras controladas em tempo real por operadores apartir de um navio. As actividades de recolha de amostras e análise realizadas em 2007 pelo navio “James Cook” foram ainda complementadas com o trabalho de cartografia do fundo do mar executado pelo navio D. Carlos I, que analisava também a água e avaliava as correntes existentes.

 

 

 Mas vamos ao que mais nos interessa: Como se formam as ondas afinal? Tomei a liberdade de citar a tese de mestrado de Luís Quaresma (sim há uma tese sobre o Canhão da Nazaré!) onde, de uma forma poética e simples nos explica o processo para quem, como eu, não entende rigorosamente nada de Física:

Quem não brincou à beira de um charco sem resistir a atirar-lhe uma pedra? O fascínio de perturbar uma superfície plana, e admirar o efeito das ondas que a modelam, é inerente a todos nós. Enquanto que o ponto da colisão é dependente da nossa pontaria, as “ondinhas” geradas são função das características do charco e da pedra. Se este fosse homogéneo (com igualdensidade em todo o domínio) e isótropo (onde a velocidade de fase da onda é a mesma em qualquer direcção), observaríamos uma circularidade crescente, resultante de uma dispersão radial da onda. No entanto, os charcos que se formam após uma dia chuvoso são tudo menos perfeitos, constituindo as folhas, os ramos, as pedrinhas e as margens obstáculos à propagação da perturbação. Este contributo promove uma dinâmica variada, alimentada por processos físicos como a difracção, a reflexão e a refracção. (...) Imagine-se agora que o nosso charco apresenta no fundo uma camada de água mais fria e enlameada. Desta vez, deixámos de ver o chão e a água cristalina à superfície permitindo verificar que a fronteira entre as duas camadas “está já ali”. (...) À semelhança da superfície, a fronteira que separa as duas camadas será perturbada e sobre ela vão também dispersar-se ondas, modeladas pelas características do charco. (...) O oceano mostra-se em muitos aspectos como um gigantesco charco estratificado, onde as camadas se diferenciam por diferentes densidades e as pedras atiradas não alteram por si só a sua superfície já perturbada. No entanto, oscilações internas ocorrem de forma ubíqua em todo o seu domínio, sem que se conheça exactamente os agentes que as originam (de onde vêm as pedras?).

Estas perturbações da estrutura interna do oceano aparecem recorrentemente nos registos de temperatura, salinidade e velocidade da corrente, tendo sido muitas vezes apontadas como parte constituinte do ruído da medição.

 

 

Identificação das assinaturas de ondas internas presentes na imagem SEASAT  sobre o canhão submarino da Nazaré (QUARESMA, 2003). Classificação dos trens de onda por direcções de propagação de fase. Em cor azul destacam-se as ondas que se propagam para a plataforma a norte do canhão, a verde as que se propagam para a plataforma a sul do canhão, a amarelo e a roxo as ondas que se propagam no sentido do largo. Integração da interpretação da imagem SAR com a carta batimétrica do canhão da Nazaré publicada pelo IH em colaboração com o Dr. VANNEY (1988).

 

Em suma, o Canhão da Nazaré é um gigantesco acidente topográfico, de características únicas no mundo e desempenha um papel preponderante na circulação regional das massas de água. As suas características favorecem o transporte de massa e energia entre as regiões da plataforma interna e o oceano profundo. Por esta razão, entre outro tipo de ocorrências, nomeadamente a forte dinâmica semidentar daquela zona, ocorrem as ondulações de grande amplitude e período que tão bem conhecemos... e que dão momentos tão espectaculares como este. 

 

 

Jaime Jesus, em 16 de Dezembro de 2007, capatado pela objectiva do fotógrafo do jornal “ Record”, Miguel Lopes Barreira, durante o Nazaré Special Edition. Esta fotografia venceu o terceiro prémio do World Press Photo daquele ano.

 

Adaptado de:

Quaresma, Luís - OBSERVAÇÃO DE ONDAS INTERNAS NÃO-LINEARES GERADAS SOBRE O CANHÃO SUBMARINO DA NAZARÉ, Mestrado em Ciências Geofísicas – Oceanografia, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências 2006.

http://www.cm-nazare.pt

http://www.euclides.net/noticias.php?id=598

 

 

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