Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Ser Flor do Mar

O que é isto de ser mulher num desporto maioritariamente masculino?

 

É esta a pergunta a que me propuseram responder nesta edição. O meu primeiro impulso foi partilhar esta questão com alguém na mesma condição. Foi aqui que me surgiu a primeira pista: a solidão. Se surfar já é só por si só um desporto individualista, fazê-lo sendo rapariga ainda o é mais, já para nem falar no acto de escrever para uma revista dedicada a esses desportos.

O número de praticantes masculinos continua a ser bastante superior e não são necessários estudos concretos para afirmá-lo com segurança (a propósito o INE ou a FPS bem podia disponibilizá-los). No entanto, é inegável que o número de raparigas que praticam surf e bodyboard tem vindo a crescer a olhos vistos. As praias repletas de donzelas solitárias de olhos no horizonte à espera dos seus mais-que-tudo, já era. As meninas revoltaram-se e vieram para ficar. O que é que mudou? A explicação que encontro é a mesma que justifica a presença crescente das mulheres nas Forças Armadas ou em profissões tradicionalmente masculinas. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e o papel da mulher na sociedade portuguesa tem vindo a modificar-se e acompanhar a tendência dos restantes países económica e culturalmente mais evoluídos. A pouco e pouco o feminino conquista o seu próprio espaço e tem, além da oportunidade, também um interesse crescente por outros domínios.  

As pioneiras sofreram na pele o preconceito de serem mulheres e serem diferentes, mas abriram a porta às gerações mais novas que lhes puderam seguir as pisadas. Particularmente aos nossos desportos de mar, penso que se está a evoluir cada vez mais no sentido do respeito e admiração pela mulher que, tal como os homens, gosta de ondas e já rivaliza em performance. Bom exemplo disto mesmo, no plano competitivo, foi a recente etapa do Nacional Open de Bodyboard em Sagres, onde Rita Pires esteve perto de atingir as meias finais, em baterias mistas,  com o tri-campeão europeu Manuel Centeno e o top 6º no ranking mundial Hugo Pinheiro, ainda na água; isto só para mencionar alguns.  

Pessoalmente, ao invés do preconceito dentro de água, sinto um pouco de solidão e a falta de solidariedade feminina. Sinto o peso de me destacar, por ser diferente, quase sempre a única e por isso não querer dar parte de fraca, ambicionar fazer mais melhor, tanto para mim, mas talvez ainda mais para os outros... . E esta talvez seja uma condição ou condenação exclusivamente feminina: sentir o dever e o querer provar constantemente a nós mesmas e a eles que afinal também conseguimos ser bons nas mesmas coisas.   

Nunca senti qualquer tipo de preconceito dentro de água. Muito pelo contrário, seja entre companheiros de surfada ou ilustres desconhecidos. Um pouco de cavalheirismo? Talvez. Mas de qualquer forma, a aversão de outrora a mulheres no mundo do surf, diria que é inexistente. A haver preconceito, será o das mulheres e ondas grandes não combinarem. Será esse, sem dúvida, o próximo tabu a derrubar.

Penso que Portugal já está no bom caminho, com franca expansão no número de praticantes, com o interesse crescente dos patrocinadores e das marcas que vêem o surf feminino como um nicho de mercado importante e os media que lhe dão cada vez mais visibilidade e voz à condição de ser mulher e gostar de descer ondas. Neste aspecto a Free Surf  está de parabéns já que é uma das pioneiras ao preocupar-se, desde a sua fundação, em ter um espaço próprio para as raparigas se reverem e para os homens compreenderem um pouco do espírito feminino no mar.

 

E sendo esta época de desejos para 2009 almejo que este seja um ano em que mais raparigas se decidam fazer-se às ondas e não tenho medo de entrar neste mundo ainda tão masculino, mas igualmente arrebatador. E a pouco e pouco a solidão de cada uma de nós - Flores do Mar - dará lugar a uma grande cumplicidade.

 

 

 

Texto Publicado na Revista FreeSurf Secção "Flores do Mar"-

Nr. 7 Janeiro 2009

memorizado por LaraR às 01:50
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