Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
O fim da aura?

Antes de mais quero agradecer os comentários ao meu post anterior. Não espero que todos concordem comigo, nem é esse o meu obejctivo. Pelo contrário: acho que é pela argumentação e contra-argumentação que todos nós evoluímos um pouco mais e alargamos horizontes. Agradeço em particular a visita e o comentário de hugom, já que me fez pensar um pouco mais aprofundamente sobre este assunto. Não pretendendo com este novo post impôr as minhas ideias uma vez mais, e muito menos, arrogantemente. Venho apenas tentar demonstrar mais teoricamente os meus pontos de vista, dando o feedback merecido, já que vocês tiveram o interesse de o fazer comigo com os vossos comentários.

 

Posso voltar a referir o argumento no meu post anterior: para mim, "tudo o que implica a massificação de qualquer coisa, implica forçosamente a  destruição ou profunda modificação de um património cultural e/ou natural". Embora esta seja uma opinião meramente pessoal, não é propriamente, na sua base, uma ideia minha. Walter Benjamin já referia isto por outras palavras, quando escreveu em 1936 "A obra de arte na era da  sua reprodutibilidade técnica". Este filósfo e sociólogo teorizou  neste artigo o conceito de "fim da aura".

Para o autor a experiência de uma obra de arte residia na sua prórpria aura, isto é, na sua própria autenticidade original ou "manifestação única de uma lonjura", como ele mesmo refere. Ora, com o adevento da sociedade burguesa e, em última análise, com as novas técnicas de reprodução e massificação (a industria, a fotografia, etc), dá-se aquilo a que ele chama de "decadência da aura". Num plano prático, a arte pode massificar-se, reproduzindo-se infinitamente. As massas têm acesso a essa arte, de forma politizadas mas, em última análise, nesse processo de reprodução subtrai-se aquilo que é mais importante: a aura dessa mesma obra de arte, ou seja, a característica essencial que faz dela Ser "obra de arte" em si mesma, única e irrepetível.

O que eu quero dizer com tudo isto é que, ainda que um lugar não seja propriamente uma "obra de arte" - já que até é do plano natural e não cultural - a massificação (ou divulgação perpetuada) desse mesmo lugar, implica inevitavelmente a perda da sua "aura". A "aura" como manifestação de uma lonjura", ou seja, da característica que perdura no tempo e que pode ser admirada e usufruída de geração em geração; deve ser protegida a todo o custo, na minha opinião.

 

Não me referia a proteger 5 ou 6 indivíduos, como dizia o meu caro leitor hugom. Trata-se de proteger a aura do lugar em si. Talvez quisesse antes dizer: "porque é que 5 ou 6 indivíduos têm mais direito em usufurir daquele lugar, do que os restantes leitores da Vert". A isso já eu respondi, na minha humilde opinião. Os direitos conquistam-se, como em tudo na vida. Até para se saber onde ficará tal lugar, tivemos de subtrair a revista, conquistando assim o direito a lê-la. Mas, como dizia no post anterior, para mim o surf e o bodyboard, nomeadamente, não é apenas surfar. "É o saborear do caminho que se faz para chegar até lá, literal e metaforicamente falando. São avanços, retrocessos e desiluções. É persistência. É mérito. É o prazer da surpresa da descoberta". Eis um exemplo, fazendo de novo a ponte para o mundo das artes: é por isso que precisamos de viajar ao Louvre para disfrutar da aura da verdadeira Mona Lisa. Há prazer na viagem, há prazer em aceder a algo mais ou menos protegido do mundo. Há que proteger essa "obra" , para as gerações vindouras,  pois é na sua aura que reside o seu valor.

 

Mas pediam-me também argumentos deontológicos. Faço simplesmente minhas as palavras de Alberto Arons de Carvalho em Direito da Comunicação Social.

 

É da natureza da informação dizer a verdade e, contudo, nem toda a verdade é boa para ser dita. Assim, existe no trabalho jornalístico, e particularmente na procura da informação, uma zona de incerteza que obriga o jornalista a envolver o seu próprio julgamento, a pôr ele próprio nos pratos da balança o interesse público (...).  (p.404)

 

Estão portanto implicados, no trabalho jornalístico factores de ordem técnica e ética que estão em constante tensão: as primeiras, respeitam as condições de uma boa informação e as segundas respeitam os contextos de boa comunicação. A ética é baseada no respeito. Esse tal respeito que referi no post anterior. Arons de Carvalho, cintando Ferry, diz ainda que

 

(...) o respeito se indica por  "uma retenção da actividade instrumental convertida para a actividade comunicacional". Por outras palavras, pelo reconhecimento, no tema tratado pela informação (..). Boas razões significa que a escolha ética, para ser fundamentada, deve necessáriamente passar por uma troca de argumentos. O que é que, no tratamento de tal informação, impõe que eu decida dizer ou não dizer, dizer as coisas de uma forma e não de outra". (p. 416)

 

Quem sou eu para pedir satisfações aos fotógrafos ou bodyboarders em questão, tal como sugeriam. Acrescentava até, quem sou eu para pedir satisfações à Vert ou ao jornalista que em nome da boa informação, esqueceu, segundo a minha opinião volto a sublinhar, a boa comunicação? Não há nenhuma lei jurídica ou deontológica que obrigue em manter sigiloso um lugar perdido em nenhures, se até mesmo os diretos da vida privada, das pessoas públicas, são algo ténues face ao direito da informação. Falava apenas de contextos de "boa comunicação", por isso, volto a citar-me "há maneiras de abordar as mesmas coisas sob prismas diferentes. Por isso há o jornalismo sério e aquele que cai no sensacionalismo... ."

 

Quem sabe se assim "a aura" daquele lugar não pudesse perdurar um pouco mais em toda a sua lonjura.... .

 

 

Bibliografia:

Benjamin, Walter, "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio d'Água, 1992.

Carvalho, Alberto Arons et al, Direito da Comunicação Social, 1ª edição, Lisboa Notícias, 2003.

 

memorizado por LaraR às 23:42
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4 comentários:
De Olinda Gil a 16 de Maio de 2008 às 11:53
Concordo plenamente contigo quando dizes que "a massificação de qualquer coisa, implica forçosamente a destruição ou profunda modificação de um património cultural e/ou natural".

Não sei é se diria que cada obra de arte, única, tem a sua "aura". Mas isso da "aura" é apenas um nome, e tu sabes que eu costumo dizer que isso dos nomes não vale nada, e que na maior parte das vezes, os nomes e as palavras, isto é, a linguagem, são incapazes de exprimir os nossos sentimentos e expressões mais íntimas. É daí que depois aparecem as obras de arte.

Como sabes, o nosso mundo, a nossa sociedade, a nossa cultura estão em mudança, caminhando para um modo e estado que somos incapazes de imaginar. De todas as mudanças civilizacionais que ficaram para o passado, nenhum se assemelha a esta. E dentro dessas mudanças está a forma como vemos a arte, a massificação, a globalização...

Talvez uma obra de arte deixe de ser vista como objecto único e venerável, capaz de provocar sentimentos e sensações únicas, e passe a ser algo que toda a gente goste, infinitamente reproduzida, e à qual as diferentes pessoas associarão diferentes coisas.

Não tem de ser forçosamente mau, é sim, definitivamente diferente. E muito estranho para nós. Só o futuro dirá se é mau ou bom.

Em relação a esses paraísos naturais, conhecidos por poucos e por esses escondidos, só que para eles usufruam, ou para proteger esses paraísos, já tenho uma opinião menos racional. Até porque conheço muitos desses paraísos e não digo onde se encontram.

Porque não quero que se encham de gente, porque não os quero desvirtuados, porque quero que continuem a ser paraísos naturais, e não passem a ser paraísos comerciais.

Beijos from Alentejo
De hugom a 17 de Maio de 2008 às 01:40
ola Lara queria agradecer-te a atençao dispensada e a aplicação na resposta, é um prazer ler-te. Vou tentar manter-me objectivo coisa que me vai custar um pouco.

Tambem partilho a tua ideia romântica de lugar secreto, que faz especial sentido num mundo cada vez mais povoado e pressionado sobre todos os pontos de vista. Certamente numa zona inóspita as nossas considerações sobre a riqueza ou nao de poder partilhar um sitio com mais gente variariam. É por considerar a subjectividade destes conceitos que gosto de manter o meu romântismo dentro do plano mais pessoal possível. Pois quem se acha no direito de determinar a qualidade conforme o numero de pessoas que frequentem ou conheçam o sitio pode cair no erro de fazer juizos de valor arbitrários sobre esse mesmo número de pessoas, sobre a exposição, sobre a proveniência das pessoas etc. É um campo muito pantanoso e como nenhum de nós é imparcial, ditado pelos nossos proprios interesses e filiações.

Sobre a natureza de uma revista como a vert é a de ela própria mapear o mundo e estruturar a informação recebida. Não deveria por isso ser por desta vez focarem um sitio que te diz respeito que te fizesse sentir indignada. Quantas e quantas ondas ja desfilaram pela revista, a maioria das vezes com o beneplácito dos "locais". A verdade é que todos temos uma capacidade de assimilar também a vida e os locais dos outros. Gostamos de ver porque "gostamos de sentir".

Penso que a propria revista -e já o demostrou mais do que uma vez- partilha dessa ética invisível, que caracteriza o nosso desporto e que é um bom senso que a generalidade da imprensa nao partilha nem acha que deve atender como se viu no episodio "lourinhã" em pleno horário nobre. A vert tem pelo contrário não nomeado os picos ou deliberadamente escondê-los de acordo com a conivência dos que os usufruem.

No caso em concreto não me parece lógico que se ache que um pico de qualidade mundial situado na períferia de uma zona urbana e já frequentado há 15 anos continuasse no segredo dos deuses. Ou que uma revista ignorasse cada vez mais menções e fotografias a este pico muitas vezes vindas dos próprios locais. A alternativa proposta parece-me uma espécie de hipocrisia em que todos fingiam não saber de nada a bem de um interesse bastante dúbio que se desvia da simples preservação da identidade do local. Esta capa é o culminar da descoberta do sitio pelos primeiros aventureiros e de todos os processos que se lhe seguiram. Não é uma jogada feroz de comercialismo oportunista ou um facto completamente inesperado. Faz parte do crescimento de um determinado local.

Sinto-me à vontade para falar do assunto visto que também já fiz esse caminho ao lugar em questão e inclusive tenho registos que decidi em consciência permanecerem apenas comigo, nem sou advogado da revista em questão.

Acho no entanto que deviam desenganar-se quem acha que um pico a 10min de casa é um secret spot. É um equivoco que vai desembocar naquilo que já conhecemos de outras coutadas privadas, o localismo a possessividade e o mau ambiente. Se o aproveitaram durante 15 anos é uma razao para ficarem felizes não fonte de angustias como se fossem perder irremediavelmente alguma coisa. É assim que se vai o discernimento.

Na preocupação com as "massas" hostilizamos uma entidade imaginária da qual também fazemos parte. A pureza para mim esta na forma como nos relacionamos com os lugares e com os outros. Não esta no nr de pessoas que como sabemos pode ser reduzidíssima e arruinar completamente a vibração, a lonjura de um lugar como referes. A "natureza" também somos nós e nao devemos ter medo de nos responsabilizarmos, de sermos nós também parte dessa aura. Independentemente do numero.. "No man is an island, entire of itself"
De Anónimo a 8 de Dezembro de 2008 às 21:09
"Ou que uma revista ignorasse cada vez mais menções e fotografias a este pico muitas vezes vindas dos próprios locais"

A maralha que recentemente se apoderou deste pico não é local da zona, não vive na zona nem tão pouco é respeitada pela comunidade local. São só e apenas uns reles abutres que nada teêm a ver com a zona
Este hugo m é um doutor destes assuntos!
De hm a 10 de Dezembro de 2008 às 11:32
sim, estou um pouco a leste de quem são os "nativos", de quem são os "usurpadores" ou do destino do pico em questão. Já dei de mais para essa novela mexicana. Boas ondas para ti e não te preocupes tanto e aproveita os muitos dias completamente sem ninguém e perfeitos que tens a tua disposição nesse pico. Nem toda a gente tem a mesma sorte.

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