Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
Quando eu morrer voltarei para buscar Os instantes que não vivi junto do mar

 

Podiam ser minhas estas palavras. Talvez tuas também.

 

Partilhamos dessa busca incessante de comunhão com o mar, pretendemos uma forma de plenitude, de transcendência. É no oceano que reencontramos o nosso Ego, fugimos às rotinas, à multidão cinzenta e à cadência do próprio tempo. Os nossos sonhos mais perfeitos residem onda a onda, concretizam-se em cada vitória sobre elas e por fim esfumam-se espraiados na areia.

Todos nós sabemos o que é ter esta estranha adrenalina a percorrer o corpo, um cansaço que nos deixa leve, a alma flutuante, um sorriso inconsciente estampado no rosto. Há um misto de solidão e de ânsia de partilha, de medo e de sedução. Este é o vício dilacerante de querer estar no mar, de fazer parte dele dia após dia. Cada vez mais. Dizem que Only a surfer knows the feeling e tudo mais são banalidades. No entanto, atrevo-me a dizer que conheci estas sensações muito antes de descer a minha primeira onda, de fazer o meu primeiro tubo.

Há uma mulher que “cantava o mar” como mais ninguém foi capaz e o amou tão apaixonadamente quanto nós. E ironia das ironias, não se conhecem nela façanhas em desportos de ondas... .  A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen ama “aquela praia extasiada e nua” onde cada um de nós já sentiu “a selvagem exalação das ondas subindo para os astros como um grito puro”. Nela fascinamo-nos ao ver o “bailarino contorcido, “um oceano de músculos verdes” e “ao longe as cavalgadas do mar largo [que] sacudiam na areia as suas crinas”. Somos capazes de ouvir “a voz do mar [que] encheu o céu e a terra, uma voz que está cheia e se quebra e nunca mais acaba”.  Esse “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim” onde “as ondas marram quebrando contra a luz a sua fronte ornada de colunas” ou “inclinando o colo marram como unicórnios brancos”. A poesia de Sophia tem a “verdade e a força do mar largo” e a “claridade das praias onde a direito o vento corre” e “sobre a areia o tempo poisa”. Esta mulher descreveu ainda um pouco de cada um de nós, aqueles que “só encontram o longe que se afasta (...) e o seu corpo é só um nó de frio em busca de mais mar e mais vazio”. Com ela experimentamos sensações de plena solidão, “só[s] com a areia e com a espuma”, suspiramos em uníssono o desejo de “possuir todas as praias onde o mar ondeia”  e onde por fim gritamos: “peço-te que venhas e me dês um pouco de ti mesmo onde eu habite” ! 

A poesia de Sophia de Mello Breyner também busca a perfeição e a harmonia de um ser humano que consegue ultrapassar cada obstáculo a partir das suas próprias limitações e imperfeições. Esse ser limitado e imperfeito sou eu e és tu em cada onda ou sonho falhado, em cada remada sofrida contra a corrente do mar... e da vida.  Este é o nosso desafio constante de superação, onde pode “no extremo dos [nossos] dedos nasce[r] um voo no vértice do vento e da manhã”. Afinal, é no mar que encontramos a nossa forma de felicidade e onde, bem lá no fundo, egoístas, todos pensamos: ” - Que momentos há em que eu suponho seres um milagre criado só para mim”.

 

 

Texto Publicado na Revista FreeSurf - Nr. 5 Setembro/Outubro 2008

Ph: LaraR - Paço de Arcos

 

memorizado por LaraR às 13:13
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