Gostava de ser eu mas não sou... Quem sabe um dia! =)
E eu que já me tinha esquecido das vantagens de ter um blogue! Estava eu nesta tarde urbana ("bucólica" também ficava bonito, mas não se aplica pois espreito pela janela e só vejo uma diarreia arquitectónica à minha frente) a preparar-me para ir ler "A Morte", by Schopenhauer, em Dores do Mundo e eis que sou salva pelas maravilhas do ciberespaço. Acho que a minha única leitora merece que eu faça um interregno nos meus estudos e me dedique a escrever um post catita.
Ora bem, perguntam os meus fans porque razão me tornei surfista. Talvez para não vir a cometer sucídio, depois de tantas leituras que tenho feito sobre este tema tão iluminado que é o da Morte. Porque isto de fazer uma tese sobre funerais e mas media não é tão divertido como se pode pensar à partida. Supresos 'né? É claro que estou a exagerar um pouco, mas o exagero tem algum fundo de verdade. Há alturas em que me apetece desancar em tudo e todos e só uma boa surfada me faz regressar ao ser "doce e gentil" que afinal sou [risos]. Já dizia aquela música "Only a surfer knows de feeling". Pois bem, podia ser Homero encarnado (ou incarnado?!) que não seria capaz de descrever em toda a plenitude a sensação de estar no mar, fazer parte dele. Esta comunhão é algo de transcendente, impossível de relatar, quase divina de mais para um humano sentir. A minha querida Sophia de Mello Breyner consegue colocar em palavras muito daquilo que em sinto quando corto uma onda, quando vejo um pôr-do-sol no meio do mar, sinto um cardume de peixes mesmo ao meu lado ou o piar das gaivotas e andorinhas do mar. Fecho os olhos, inspiro e sou feliz. Há uma estranha adrenalina a percorrer o corpo, um cansaço que nos deixa leve, a alma que flutua, um sorriso inconsciente espraiado na boca. O porquê de me tornar surfista, ou bodyboarder para ser mais precisa, foi exactamente a curiosidade de experimentar estas sensações. É como quem experimenta um charro porque vê nos outros o quão parece bom "estar charrado". Garanto que é igualmente viciante, mas com a diferença que surfar é saudável, faz bem ao corpo e à mente, faz-nos sentir pequenos olhando com outros olhos a natureza, faz-nos sentir abençoados porque estamos vivos e podemos disfrutar assim dela. Além do mais, é uma "pedra" permanente.
Sempre gostei do oceano, das paisagens marítimas, do cheiro a maresia, da calma de uma praia no inverno. De estudar em cima de uma rocha qualquer ouvindo as ondas. De fotografar tudo isto, numa tentativa de cristalizar a Beleza. Via os outros, os tais "pedrados", a debaterem-se nas ondas horas a fio e depois, já com o sol deitado e o frio insuportável, voltarem do mar com a Alegria pintada na cara. "Isto não é para mim" - pensava eu. Mas tive a sorte de conhecer a pessoa certa que me incentivou a tentar e, sem dúvida, a ousar ser mais feliz.
Naquele bocadinho, quando estou no mar, não penso em absolutamente mais nada. Sinto o equilíbrio regressar ao corpo e tenho a certeza que sairei de lá alguém muito mais sereno e confiante o suficiente para agarrar o mundo.