Vicissitudes da vida, ou vicissitudes minhas, perante a vida, impediram-me de ir à água estas últimas duas semanas. Shame on me. Shame on me quando deixo de fazer a última coisa que me alegra, a única coisa que tenho certa quando nada mais parece fazer sentido. Com o passar dos dias passam a ser remotas as sinestesias, as imagens, como se tivesse acordado de um sonho que se esvai a pouco e pouco nos primeiros minutos de vigília. Assim eram as minhas lembranças e estados de alma do "estar dentro de água". E passaram... só duas semanas.
Ontem fiquei-me pelo passadiço de carcavelos, saboreando a calmia duma praia banhada pelo sol invernoso, sem o frenesi doentio dos dias de Verão. Sabe bem olhar. Simplesmente. Fazer as pazes com a vida e com o mar que me chama, mas que a cobardia me impede de responder. Cobardia de quem está desiludido com tudo, cobardia de quem pensa que já esqueceu e já não é capaz. Cobardia de sentir frio, literal e metaforcamente falando, e estender os braços num longo "não vale a pena".
Não costuma ser este o espírito de quem entra no Ano Novo. Mas foi este o espírito com que vim do Ano Velho. Nada melhor do que obrigar-me a entrar hoje dentro de água. Sim. Shame on me again. Mas nunca se obrigaram a fazer algo, sabendo que é para vosso bem? Pois hoje fui mais forte que o frio das minhas ideias e fiz-me ao frio aparente do mar.
Foi com prazer redobrado que apanhei a minha primeira onda do ano, numa espécie de alegria infantil. De repente, tudo ficou mais quente, tudo pareceu melhor. De repente o frio passara porque, afinal, esta-se bem melhor dentro de 14º graus do que nos nos 5º ou 6º que fazem lá fora... ou simplesmente porque, afinal, uma surfada dá novo fôlego à vida.
É uma das melhores coisas que existe e, se calhar, aquela que nos mostra com mais clarividência e imediatez que vale a pena Viver, nem que seja para esta sinédoque de sensações que nos traz. Sim, Surfar é a parte dum todo, que é Viver. E quando às vezes nos esquecemos de Viver... o melhor é lembrar-mo-nos apenas duma parte... aquela que ironicamente aquece o frio da Vida, numa onda gelada duma fria tarde de Inverno.
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