Antes de mais quero agradecer os comentários ao meu post anterior. Não espero que todos concordem comigo, nem é esse o meu obejctivo. Pelo contrário: acho que é pela argumentação e contra-argumentação que todos nós evoluímos um pouco mais e alargamos horizontes. Agradeço em particular a visita e o comentário de hugom, já que me fez pensar um pouco mais aprofundamente sobre este assunto. Não pretendendo com este novo post impôr as minhas ideias uma vez mais, e muito menos, arrogantemente. Venho apenas tentar demonstrar mais teoricamente os meus pontos de vista, dando o feedback merecido, já que vocês tiveram o interesse de o fazer comigo com os vossos comentários.
Posso voltar a referir o argumento no meu post anterior: para mim, "tudo o que implica a massificação de qualquer coisa, implica forçosamente a destruição ou profunda modificação de um património cultural e/ou natural". Embora esta seja uma opinião meramente pessoal, não é propriamente, na sua base, uma ideia minha. Walter Benjamin já referia isto por outras palavras, quando escreveu em 1936 "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica". Este filósfo e sociólogo teorizou neste artigo o conceito de "fim da aura".
Para o autor a experiência de uma obra de arte residia na sua prórpria aura, isto é, na sua própria autenticidade original ou "manifestação única de uma lonjura", como ele mesmo refere. Ora, com o adevento da sociedade burguesa e, em última análise, com as novas técnicas de reprodução e massificação (a industria, a fotografia, etc), dá-se aquilo a que ele chama de "decadência da aura". Num plano prático, a arte pode massificar-se, reproduzindo-se infinitamente. As massas têm acesso a essa arte, de forma politizadas mas, em última análise, nesse processo de reprodução subtrai-se aquilo que é mais importante: a aura dessa mesma obra de arte, ou seja, a característica essencial que faz dela Ser "obra de arte" em si mesma, única e irrepetível.
O que eu quero dizer com tudo isto é que, ainda que um lugar não seja propriamente uma "obra de arte" - já que até é do plano natural e não cultural - a massificação (ou divulgação perpetuada) desse mesmo lugar, implica inevitavelmente a perda da sua "aura". A "aura" como manifestação de uma lonjura", ou seja, da característica que perdura no tempo e que pode ser admirada e usufruída de geração em geração; deve ser protegida a todo o custo, na minha opinião.
Não me referia a proteger 5 ou 6 indivíduos, como dizia o meu caro leitor hugom. Trata-se de proteger a aura do lugar em si. Talvez quisesse antes dizer: "porque é que 5 ou 6 indivíduos têm mais direito em usufurir daquele lugar, do que os restantes leitores da Vert". A isso já eu respondi, na minha humilde opinião. Os direitos conquistam-se, como em tudo na vida. Até para se saber onde ficará tal lugar, tivemos de subtrair a revista, conquistando assim o direito a lê-la. Mas, como dizia no post anterior, para mim o surf e o bodyboard, nomeadamente, não é apenas surfar. "É o saborear do caminho que se faz para chegar até lá, literal e metaforicamente falando. São avanços, retrocessos e desiluções. É persistência. É mérito. É o prazer da surpresa da descoberta". Eis um exemplo, fazendo de novo a ponte para o mundo das artes: é por isso que precisamos de viajar ao Louvre para disfrutar da aura da verdadeira Mona Lisa. Há prazer na viagem, há prazer em aceder a algo mais ou menos protegido do mundo. Há que proteger essa "obra" , para as gerações vindouras, pois é na sua aura que reside o seu valor.
Mas pediam-me também argumentos deontológicos. Faço simplesmente minhas as palavras de Alberto Arons de Carvalho em Direito da Comunicação Social.
É da natureza da informação dizer a verdade e, contudo, nem toda a verdade é boa para ser dita. Assim, existe no trabalho jornalístico, e particularmente na procura da informação, uma zona de incerteza que obriga o jornalista a envolver o seu próprio julgamento, a pôr ele próprio nos pratos da balança o interesse público (...). (p.404)
Estão portanto implicados, no trabalho jornalístico factores de ordem técnica e ética que estão em constante tensão: as primeiras, respeitam as condições de uma boa informação e as segundas respeitam os contextos de boa comunicação. A ética é baseada no respeito. Esse tal respeito que referi no post anterior. Arons de Carvalho, cintando Ferry, diz ainda que
(...) o respeito se indica por "uma retenção da actividade instrumental convertida para a actividade comunicacional". Por outras palavras, pelo reconhecimento, no tema tratado pela informação (..). Boas razões significa que a escolha ética, para ser fundamentada, deve necessáriamente passar por uma troca de argumentos. O que é que, no tratamento de tal informação, impõe que eu decida dizer ou não dizer, dizer as coisas de uma forma e não de outra". (p. 416)
Quem sou eu para pedir satisfações aos fotógrafos ou bodyboarders em questão, tal como sugeriam. Acrescentava até, quem sou eu para pedir satisfações à Vert ou ao jornalista que em nome da boa informação, esqueceu, segundo a minha opinião volto a sublinhar, a boa comunicação? Não há nenhuma lei jurídica ou deontológica que obrigue em manter sigiloso um lugar perdido em nenhures, se até mesmo os diretos da vida privada, das pessoas públicas, são algo ténues face ao direito da informação. Falava apenas de contextos de "boa comunicação", por isso, volto a citar-me "há maneiras de abordar as mesmas coisas sob prismas diferentes. Por isso há o jornalismo sério e aquele que cai no sensacionalismo... ."
Quem sabe se assim "a aura" daquele lugar não pudesse perdurar um pouco mais em toda a sua lonjura.... .
Bibliografia:
Benjamin, Walter, "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio d'Água, 1992.
Carvalho, Alberto Arons et al, Direito da Comunicação Social, 1ª edição, Lisboa Notícias, 2003.
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