O desfiladeiro da Nazaré é uma espécie de imenso vale submarino que atinge os cinco mil metros de profundidade e os 150 junto à costa e se estende ao longo de 200 km. Funciona como um gigantesco "aspirador de inertes" e permite ecossistemas diversos, de acordo com o seu nível de profundidade. Em diversos estudos nacionais e estrangeiros, encontraram, por exemplo, um tubarão a 3600 metros de profundidade, assim como diversas colónias de corais e espécies ainda desconhecidas. Este espectacular acidente geomorfológico de origem tectónica, relacionado com a falha da Nazaré-Pombal, começa a definir-se a cerca de Numa iniciativa inserida no projecto europeu HermesO, o Canhão da Nazaré - um dos mais importantes de todo o projecto - foi alvo de estudos executados com o apoio de um ROV (Remote Operating Vehicle) que permitiu recolher estes e outros tipos de dados em profundidade. O robô, controlado por fibra óptica, tem várias câmaras e garras controladas em tempo real por operadores apartir de um navio. As actividades de recolha de amostras e análise realizadas em 2007 pelo navio “James Cook” foram ainda complementadas com o trabalho de cartografia do fundo do mar executado pelo navio D. Carlos I, que analisava também a água e avaliava as correntes existentes.

Mas vamos ao que mais nos interessa: Como se formam as ondas afinal? Tomei a liberdade de citar a tese de mestrado de Luís Quaresma (sim há uma tese sobre o Canhão da Nazaré!) onde, de uma forma poética e simples nos explica o processo para quem, como eu, não entende rigorosamente nada de Física:
Quem não brincou à beira de um charco sem resistir a atirar-lhe uma pedra? O fascínio de perturbar uma superfície plana, e admirar o efeito das ondas que a modelam, é inerente a todos nós. Enquanto que o ponto da colisão é dependente da nossa pontaria, as “ondinhas” geradas são função das características do charco e da pedra. Se este fosse homogéneo (com igualdensidade em todo o domínio) e isótropo (onde a velocidade de fase da onda é a mesma em qualquer direcção), observaríamos uma circularidade crescente, resultante de uma dispersão radial da onda. No entanto, os charcos que se formam após uma dia chuvoso são tudo menos perfeitos, constituindo as folhas, os ramos, as pedrinhas e as margens obstáculos à propagação da perturbação. Este contributo promove uma dinâmica variada, alimentada por processos físicos como a difracção, a reflexão e a refracção. (...) Imagine-se agora que o nosso charco apresenta no fundo uma camada de água mais fria e enlameada. Desta vez, deixámos de ver o chão e a água cristalina à superfície permitindo verificar que a fronteira entre as duas camadas “está já ali”. (...) À semelhança da superfície, a fronteira que separa as duas camadas será perturbada e sobre ela vão também dispersar-se ondas, modeladas pelas características do charco. (...) O oceano mostra-se em muitos aspectos como um gigantesco charco estratificado, onde as camadas se diferenciam por diferentes densidades e as pedras atiradas não alteram por si só a sua superfície já perturbada. No entanto, oscilações internas ocorrem de forma ubíqua em todo o seu domínio, sem que se conheça exactamente os agentes que as originam (de onde vêm as pedras?).
Estas perturbações da estrutura interna do oceano aparecem recorrentemente nos registos de temperatura, salinidade e velocidade da corrente, tendo sido muitas vezes apontadas como parte constituinte do ruído da medição.
Identificação das assinaturas de ondas internas presentes na imagem SEASAT sobre o canhão submarino da Nazaré (QUARESMA, 2003). Classificação dos trens de onda por direcções de propagação de fase. Em cor azul destacam-se as ondas que se propagam para a plataforma a norte do canhão, a verde as que se propagam para a plataforma a sul do canhão, a amarelo e a roxo as ondas que se propagam no sentido do largo. Integração da interpretação da imagem SAR com a carta batimétrica do canhão da Nazaré publicada pelo IH em colaboração com o Dr. VANNEY (1988).
Em suma, o Canhão da Nazaré é um gigantesco acidente topográfico, de características únicas no mundo e desempenha um papel preponderante na circulação regional das massas de água. As suas características favorecem o transporte de massa e energia entre as regiões da plataforma interna e o oceano profundo. Por esta razão, entre outro tipo de ocorrências, nomeadamente a forte dinâmica semidentar daquela zona, ocorrem as ondulações de grande amplitude e período que tão bem conhecemos... e que dão momentos tão espectaculares como este.

Jaime Jesus, em 16 de Dezembro de 2007, capatado pela objectiva do fotógrafo do jornal “ Record”, Miguel Lopes Barreira, durante o Nazaré Special Edition. Esta fotografia venceu o terceiro prémio do World Press Photo daquele ano.
Adaptado de:
http://www.euclides.net/noticias.php?id=598
Vicissitudes da vida, ou vicissitudes minhas, perante a vida, impediram-me de ir à água estas últimas duas semanas. Shame on me. Shame on me quando deixo de fazer a última coisa que me alegra, a única coisa que tenho certa quando nada mais parece fazer sentido. Com o passar dos dias passam a ser remotas as sinestesias, as imagens, como se tivesse acordado de um sonho que se esvai a pouco e pouco nos primeiros minutos de vigília. Assim eram as minhas lembranças e estados de alma do "estar dentro de água". E passaram... só duas semanas.
Ontem fiquei-me pelo passadiço de carcavelos, saboreando a calmia duma praia banhada pelo sol invernoso, sem o frenesi doentio dos dias de Verão. Sabe bem olhar. Simplesmente. Fazer as pazes com a vida e com o mar que me chama, mas que a cobardia me impede de responder. Cobardia de quem está desiludido com tudo, cobardia de quem pensa que já esqueceu e já não é capaz. Cobardia de sentir frio, literal e metaforcamente falando, e estender os braços num longo "não vale a pena".
Não costuma ser este o espírito de quem entra no Ano Novo. Mas foi este o espírito com que vim do Ano Velho. Nada melhor do que obrigar-me a entrar hoje dentro de água. Sim. Shame on me again. Mas nunca se obrigaram a fazer algo, sabendo que é para vosso bem? Pois hoje fui mais forte que o frio das minhas ideias e fiz-me ao frio aparente do mar.
Foi com prazer redobrado que apanhei a minha primeira onda do ano, numa espécie de alegria infantil. De repente, tudo ficou mais quente, tudo pareceu melhor. De repente o frio passara porque, afinal, esta-se bem melhor dentro de 14º graus do que nos nos 5º ou 6º que fazem lá fora... ou simplesmente porque, afinal, uma surfada dá novo fôlego à vida.
É uma das melhores coisas que existe e, se calhar, aquela que nos mostra com mais clarividência e imediatez que vale a pena Viver, nem que seja para esta sinédoque de sensações que nos traz. Sim, Surfar é a parte dum todo, que é Viver. E quando às vezes nos esquecemos de Viver... o melhor é lembrar-mo-nos apenas duma parte... aquela que ironicamente aquece o frio da Vida, numa onda gelada duma fria tarde de Inverno.
Estes são problemas omnipresentes no mundo do surf e bodyboard. Atravessam países e culturas. E que atire a primeira pedra quem gosta de ver crowd estranho – os chamados haoles - no seu “quintal” ou um dos seus secrets revelados na capa da magazine do mês.
Eu encaro este problema, em particular, duma forma um pouco mais profunda do que o simples egoísmo e desdém pela concorrência alheia. É aqui que a minha paixão por ondas e paisagens solitárias entra em conflito com a minha alma de jornalista. Se por um lado a primeira jura a pés juntos proteger a todo o custo o seu cantinho mágico, a segunda sussurra-me que o leitor tem direito a saber, tal como eu, da existência daquele lugar. É um direito da res publica e, por outro lado, o dever do jornalista, inchado de orgulho, em ser o primeiro a dizer "eu sei que existe e posso dizer-vos onde é". E até aposto que nós poríamos o moralismo de lado por uns segundos e lá comprávamos a revista para saber as novidades. No entanto, até mesmo O Direito da Comunicação Social diz que “é da natureza da informação dizer a verdade e, contudo, nem toda a verdade é boa para ser dita”.
Encontrar um ponto de equilíbrio entre o divulgar e omitir, entre desenvolver o mundo da competição com novas etapas e resguardar locais que deviam ser reservados ao free-surf. Complicado!
Considero que os desportos de mar, em particular o surf e o bodyboard, são bem mais que a prancha da última moda, ondas, manobras e fama. Neles reside tudo o que é contrário à preguiça: é o saborear do caminho que se faz para chegar até lá, literal e metaforicamente falando. São avanços, retrocessos e desilusões. É persistência, mérito e o prazer da descoberta. É a ousadia de se lançar em "mares nunca dantes navegados" e a esperança de sermos brindados, num regresso, com a mesma pureza duma primeira vez.
Mas, acima de tudo, é mostrar respeito por quem desbravou antes de mim aquele lugar, mantendo um segredo. Respeito por aquele pedaço de natureza abençoado desbravado apenas num ou noutro escasso momento. Afinal, também não é contra-natura deixar vazia uma onda perfeita? No entanto, a história ensina-nos que estes deveriam ser actos mais ou menos solitários, pois tudo que implica massas implica inevitavelmente a destruição ou profunda modificação de uma espécie de património, seja ele cultural, seja ele natural.
Embora esta seja uma opinião meramente pessoal, não é propriamente, na sua base, uma ideia minha. O filósofo e sociólogo Walter Benjamin já referia isto por outras palavras, quando escreveu em 1936 o artigo "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", onde teorizou o conceito do "fim da aura". Em resumo, para o autor a experiência de uma obra de arte residia na sua própria aura, isto é, na sua própria autenticidade original ou "manifestação única de uma lonjura". Com o advento da sociedade burguesa e as novas técnicas de reprodução e massificação (a industria, a fotografia, etc.), dá-se aquilo a que ele chama de "decadência da aura". Num plano prático, a arte pode massificar-se, reproduzindo-se infinitamente. As massas têm acesso a essa arte, de forma politizada mas nesse processo de reprodução subtrai-se aquilo que é mais importante: a aura dessa mesma obra de arte, ou seja, a característica essencial que faz dela Ser "obra de arte" em si mesma, única e irrepetível.
O que eu quero dizer com tudo isto é que, ainda que um spot não seja propriamente uma "obra de arte" – pois é do plano natural e não cultural - a massificação (ou divulgação perpetuada) desse mesmo lugar, implica inevitavelmente a perda da sua "aura", ou seja, da característica que perdura no tempo e que pode ser admirada e usufruída de geração em geração. Uma “lonjura” que deveria ser protegida. Não quero dizer com isto que estejam em causa os direitos de meia dúzia de locais. Trata-se acima de tudo de proteger a aura do lugar em si.
Apesar de tudo, considero que os direitos se conquistam como em tudo na vida. Seja por herança, por conquista ou por mérito. Seja por nascermos ali e surfarmos lá toda a vida, pela dica do nosso melhor amigo ou pela nossa performance dentro de água.
Mas deixemo-nos de hipocrisias. Lugares secretos ou vedados aos locais, nos dias que correm, começam cada vez mais a ser uma ideia romântica. Se por um lado queremos ver o nosso desporto evoluir temos inevitavelmente de engolir alguns sapos, nomeadamente, o aumento de crowd ou, em último estádio, a realização de campeonatos na nossa praia de eleição. Além do mais é irreal pensarmos que um spot a poucos minutos da civilização seja eternamente secreto. A humanidade é cada vez mais uma grande aldeia global e caminha muito mais no sentido da exposição do que no da preservação. É uma consequência dos tempos modernos que se estende a todos os campos sociais.
Resta então, a cada um de nós, ser responsável por manter a todo o custo a aura do nosso spot pois, no final de contas, nós também fazemos parte dessa “manifestação de lonjura”, numa comunhão perfeita. Seja pela forma como nos relacionamos com o lugar, com os outros que o partilham connosco ou pela nossa atitude no mar. Sejamos cinco ou sejamos cinquenta.
Texto Publicado na Revista FreeSurf Secção "Flores do Mar"- Nr. 6 Novembro / Dezembro 2008
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Este texto é a retoma de algumas ideias veiculadas aqui, em posts anteriores. Agradeço sobretudo ao blogger Hugo M. pela profícua e estimulante troca de comentários que em muito enriqueceram este resultado final.
Podiam ser minhas estas palavras. Talvez tuas também.
Partilhamos dessa busca incessante de comunhão com o mar, pretendemos uma forma de plenitude, de transcendência. É no oceano que reencontramos o nosso Ego, fugimos às rotinas, à multidão cinzenta e à cadência do próprio tempo. Os nossos sonhos mais perfeitos residem onda a onda, concretizam-se em cada vitória sobre elas e por fim esfumam-se espraiados na areia.
Todos nós sabemos o que é ter esta estranha adrenalina a percorrer o corpo, um cansaço que nos deixa leve, a alma flutuante, um sorriso inconsciente estampado no rosto. Há um misto de solidão e de ânsia de partilha, de medo e de sedução. Este é o vício dilacerante de querer estar no mar, de fazer parte dele dia após dia. Cada vez mais. Dizem que Only a surfer knows the feeling e tudo mais são banalidades. No entanto, atrevo-me a dizer que conheci estas sensações muito antes de descer a minha primeira onda, de fazer o meu primeiro tubo.
Há uma mulher que “cantava o mar” como mais ninguém foi capaz e o amou tão apaixonadamente quanto nós. E ironia das ironias, não se conhecem nela façanhas em desportos de ondas... . A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen ama “aquela praia extasiada e nua” onde cada um de nós já sentiu “a selvagem exalação das ondas subindo para os astros como um grito puro”. Nela fascinamo-nos ao ver o “bailarino contorcido, “um oceano de músculos verdes” e “ao longe as cavalgadas do mar largo [que] sacudiam na areia as suas crinas”. Somos capazes de ouvir “a voz do mar [que] encheu o céu e a terra, uma voz que está cheia e se quebra e nunca mais acaba”. Esse “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim” onde “as ondas marram quebrando contra a luz a sua fronte ornada de colunas” ou “inclinando o colo marram como unicórnios brancos”. A poesia de Sophia tem a “verdade e a força do mar largo” e a “claridade das praias onde a direito o vento corre” e “sobre a areia o tempo poisa”. Esta mulher descreveu ainda um pouco de cada um de nós, aqueles que “só encontram o longe que se afasta (...) e o seu corpo é só um nó de frio em busca de mais mar e mais vazio”. Com ela experimentamos sensações de plena solidão, “só[s] com a areia e com a espuma”, suspiramos em uníssono o desejo de “possuir todas as praias onde o mar ondeia” e onde por fim gritamos: “peço-te que venhas e me dês um pouco de ti mesmo onde eu habite” !
A poesia de Sophia de Mello Breyner também busca a perfeição e a harmonia de um ser humano que consegue ultrapassar cada obstáculo a partir das suas próprias limitações e imperfeições. Esse ser limitado e imperfeito sou eu e és tu em cada onda ou sonho falhado, em cada remada sofrida contra a corrente do mar... e da vida. Este é o nosso desafio constante de superação, onde pode “no extremo dos [nossos] dedos nasce[r] um voo no vértice do vento e da manhã”. Afinal, é no mar que encontramos a nossa forma de felicidade e onde, bem lá no fundo, egoístas, todos pensamos: ” - Que momentos há em que eu suponho seres um milagre criado só para mim”.
Texto Publicado na Revista FreeSurf - Nr. 5 Setembro/Outubro 2008
Ph: LaraR - Paço de Arcos
Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e a sua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, passo a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
Sophia de Mello Breyner Andresen in, Poesias I-III (1944)
Foto: LaraR- Pontão Praia Nova - Caparica - Janeiro08
http://myspacetv.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&videoid=5326975
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